Dez startups de moda subiram ao palco da Prefeitura de Estocolmo, o mesmo salão onde acontece o banquete do Prêmio Nobel, e saíram com 200 mil euros cada (cerca de R$ 1,2 milhão, em conversão aproximada). Elas ganharam ainda uma vaga no Changemaker Program, aceleradora de um ano da H&M Foundation, realizada em parceria com a Accenture e o instituto sueco KTH Royal Institute of Technology.
O Global Change Award chega à 11ª edição e já é chamado de “Nobel da moda”. As inovações premiadas neste ano ainda estão em estágio inicial e vão de óculos inteligentes com inteligência artificial, que detectam falhas na linha de produção em tempo real, a fibras inspiradas na seda de aranha, produzidas por microrganismos, e alternativas biodegradáveis ao couro feitas de algas. O grupo se junta a uma rede de ex-premiados com quase 70 empresas.
Da invenção brilhante às pessoas que a colocam em prática
Segundo Christiane Dolva, chefe de inovação, pesquisa e demonstração da fundação, a inovação continua sendo um pilar do prêmio, mas o conceito ficou mais amplo: é “uma nova forma de fazer as coisas que gera impacto”. Isso significa olhar além de novos materiais e máquinas, que dominaram edições anteriores sem considerar como se encaixam na transformação do setor como um todo.
É nesse espírito que entra a Alu, plataforma americana que usa IA e psicologia comportamental para transformar passaportes digitais de produtos em ferramentas capazes de mudar o comportamento do consumidor. Para a fundadora e CEO, Donatela Bellone, falta à sustentabilidade o último elo da cadeia: a pessoa que é dona das roupas. Ela afirma que o comportamento humano pode ser tão complexo quanto a química, a física ou a biologia.
A britânica EntroMetrix aposta em gêmeos digitais com IA baseada em física para ajudar fábricas a reduzir desperdício e gasto de energia usando os dados e os equipamentos que já têm. Segundo o cofundador Mohammed Ali, tecnologias como captura de carbono ou hidrogênio ainda estão distantes e exigem muito capital, enquanto a eficiência operacional permite que fornecedores de segundo nível cortem até 20% das emissões e ainda reduzam custos. Já a americana Rhea’s Factory usa IA e enzimas modificadas para converter resíduos contaminados de plástico e têxteis em monômeros de qualidade virgem, algo que, segundo o cofundador e diretor de tecnologia Mert Topçu, nenhum processo de reciclagem consegue hoje com peças de misturas de fibras, tingidas e acabadas.
A KelTex, da Tanzânia, produz biocouro de algas cultivadas de forma sustentável e desenvolve um sistema de aquicultura com IA para monitorar o cultivo e orientar a colheita. O objetivo, explica o cofundador e CEO Laetus Buberwa, é reduzir a variação entre lotes e dar consistência ao material final. Dolva também citou a Threadbridge, de Bangladesh, cuja ferramenta de inspeção visual aponta defeitos enquanto as peças percorrem a linha de produção e ajuda os trabalhadores a desenvolver habilidades técnicas e proteger seus empregos.
O “meio difícil” entre o protótipo e a escala
Questionada sobre os riscos da IA, Dolva disse sentir-se quase intimidada diante de um campo que muda tão rápido. Ainda assim, afirmou que, aplicada para o bem, a tecnologia tem enorme potencial, e que, qualquer que seja o nível de IA usado, o sucesso continua sendo muito humano: depende da ambição, da paixão e da garra de quem empreende.
Por isso a fundação investe cada vez mais em implementação. Ideias novas costumam atrair mais entusiasmo do que o apoio concreto de que precisam para crescer, e o prêmio e sua rede de aceleração querem ajudar as startups a atravessar o que Dolva chama de “meio difícil”: sair da prova de conceito e chegar à escala industrial e à paridade de preço, em parceria com fabricantes. Para a executiva, essa colaboração também é uma habilidade “profundamente humana”.
Para quem acompanha o setor, o recado é claro: o futuro da moda sustentável depende menos de promessas de laboratório e mais de parcerias, dados e gente capaz de levar a novidade até a linha de produção, o que pode orientar também marcas e fornecedores brasileiros em busca de eficiência.





