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Negócios

Moda de luxo contrata “head of nature”: o cargo que a Kering já tem e outras grifes cobiçam

Natureza volta ao centro da agenda de sustentabilidade e as empresas de moda passam a contratar líderes para o tema. Veja como a Kering estruturou sua equipe.

Redação Novidades e Joias
22 de outubro de 2026, 06h41 · 4 min de leitura
Moda de luxo contrata "head of nature": o cargo que a Kering já tem e outras grifes cobiçam
Foto: DJI-Agras / Pixabay

Um novo cargo começa a aparecer nos organogramas da moda: o de líder de natureza. Na Kering, dona de grifes de luxo, a executiva Rachel Kolbe Semhoun responde por fontes sustentáveis de matéria-prima e iniciativas de natureza. Ela contou que a chance de ter a palavra “natureza” no título pesou na decisão de aceitar o convite, em 2024. A informação vem de reportagem da Vogue Business sobre como montar uma equipe desse tipo.

A história do setor começa antes. A consultoria Biodiversify foi fundada em 2019 pelos doutores Samuel Sinclair e Michael Burgass, com apoio da Kering. Na época, abrir uma empresa dedicada à estratégia de natureza parecia “loucura”, segundo Sinclair. A pandemia mudou esse cenário, ao levar muita gente a desacelerar e se reconectar com o meio ambiente, e o que veio depois foi uma espécie de “boom da natureza”, com consultorias e startups de tecnologia atrás desse mercado.

Do boom ao recuo, e à retomada

Dois marcos deram régua ao tema. Em 2021 nasceu a TNFD, força-tarefa que ajuda empresas a mapear riscos e dependências ligados à natureza e a divulgá-los ao mercado financeiro. Em 2023, a iniciativa Science-based Targets lançou seu roteiro específico para natureza, o SBTN. As empresas líderes passaram a contratar profissionais dedicados.

Em 2024, porém, regulações de sustentabilidade na Europa perderam força, com a guinada política à direita e o foco renovado na competitividade do continente. Consultorias fecharam ou cortaram equipes, e alguns grupos de moda reduziram times e metas. Sinclair avalia que encolheu sobretudo a consultoria de conformidade, aquela que se resume a produzir um relatório e publicá-lo no site. Já o mercado de quem quer agir de verdade, para além da obrigação, seguiu crescendo de forma constante.

Agora o assunto volta ao topo da pauta. Foi um dos grandes temas da Climate Week de Nova York, em setembro, e da conferência da Textile Exchange. Hannah Phang, cofundadora da consultoria The Now Work, vê duas razões: a área de clima, focada em descarbonização, já funciona como uma “máquina bem azeitada” em muitas empresas, o que libera os times para água, biodiversidade e impacto social. Além disso, o clima se politizou, enquanto a natureza é vista como pauta apartidária e ficou mais visível depois de um verão de ondas de calor, secas e incêndios.

Para a moda, os riscos são concretos: safras de algodão devastadas pela seca, cadeias de couro ligadas ao desmatamento, polos de produção com escassez de água e redes de lojas atingidas por enchentes.

Como montar a equipe

O primeiro ponto é o apoio da cúpula. Tony Goldner, CEO da TNFD, diz que o líder de natureza precisa de um patrocinador sênior, que pode ser o diretor de sustentabilidade, o financeiro ou o presidente, com orçamento para consultores, dados e projetos. Phang acrescenta dois pontos: responsabilidade, ou seja, se as metas ficam só com sustentabilidade ou entram nos indicadores de outras áreas, e comunicação. Um parceiro no financeiro ajuda a traduzir o impacto em números, e isso protege o projeto quando o orçamento aperta.

Na Kering, o time de natureza fica dentro dos programas sustentáveis, ao lado de circularidade e do Material Innovation Lab. Trabalha de perto com a área de desempenho sustentável, que atua com fornecedores de confecção e de materiais, e com a de finanças sustentáveis, voltada à redução de riscos. Segundo Kolbe Semhoun, a equipe não precisa ser grande, porque os times diversos da casa abordam desafios complexos de forma multidisciplinar.

Há debate sobre a palavra “natureza” no cargo. Para Kolbe Semhoun, ela pode ser uma faca de dois gumes, pois há quem ache que o tema se resume a pássaros e borboletas e pense que pode ignorá-lo. Jennie Granström, do H&M Group, diz que “biodiversidade” também confunde, por ser um conceito amplo. Já temas como desmatamento e uso da terra são bem entendidos e priorizados.

O que isso significa para quem acompanha o luxo? Líderes de natureza costumam ser contratados para escopos menores e acabam no centro da estratégia de resiliência, quando o mapeamento de riscos revela o quanto a marca depende de matérias-primas e territórios. Vale observar quais grifes tratam o cargo como estratégia de negócio, e não como vitrine.

Com informações de Vogue.