O grupo francês SMCP, dono das marcas Sandro, Maje, Claudie Pierlot e da masculina Fursac, registrou vendas de 291,4 milhões de euros (cerca de R$ 1,8 bilhão, em conversão aproximada) no terceiro trimestre, queda de 2% em base orgânica sobre o mesmo período do ano anterior. Em valores reportados, o recuo foi de 1% nos três meses encerrados em 30 de setembro. A notícia derrubou as ações da empresa em 10,5% na manhã de negociação.
O SMCP atua no chamado luxo acessível, segmento de moda premium com preços abaixo das grandes grifes. O resultado mostra como o grupo depende do equilíbrio entre mercados: o crescimento nas Américas e no resto da Europa não foi suficiente para compensar a fraqueza em casa e a lentidão na Ásia.
França puxa o resultado para baixo
As vendas orgânicas na França caíram 9,7% no trimestre, o pior desempenho entre as regiões. A empresa aponta a demanda contida do consumidor, em parte por causa das ondas de calor extremo que atingiram o país no verão, e o efeito do fechamento de suas concessões na loja de departamentos BHV.
O grupo deixou a rede da BHV em novembro do ano passado, quando a então controladora, a Société des Grands Magasins, fechou acordo com a marca chinesa de ultra fast fashion Shein para abrigar sua primeira loja física, o que gerou oposição política e social. A CEO Isabelle Guichot afirmou que o clima incomum e os efeitos de perímetro, como o fim das concessões, devem perder força no quarto trimestre.
Américas crescem, e a Ásia segue difícil
As Américas avançaram 4,3%, com crescimento em lojas comparáveis nos Estados Unidos. A região recebeu investimento pesado: no ano passado, a Sandro abriu lojas no Chile, no México e na Argentina, parte da estratégia de compensar o fechamento de pontos na China após a pandemia. Paraguai e Uruguai também estão nos planos. A Europa e o Oriente Médio, sem contar a França, subiram 2,5%. Já a Ásia-Pacífico caiu 3,3%: Hong Kong, Taiwan, Macau e Singapura ajudaram, mas a desaceleração na China continental pesou. Guichot descreveu o país como um cenário de fundo “difícil”.
Entre as marcas, a Sandro ficou estável, sem alta nem queda, e a Maje recuou 2,4%. Claudie Pierlot e Fursac, reportadas em conjunto, tiveram queda de 9,5%. Em comunicado, Guichot disse que o grupo entregou “um desempenho resiliente” em meio a um ambiente desafiador e que está satisfeito com o crescimento contínuo nas Américas e na região EMEA (Europa, Oriente Médio e África).
A executiva reafirmou a aposta em vender a preço cheio: a taxa média de desconto caiu dois pontos percentuais em relação a 2025, com maior rigor em todas as regiões. Segundo ela, o foco está em fortalecer o desejo pelas marcas, como mostraram os desfiles na Semana de Moda de Paris, em que as três marcas femininas destacaram herança e materiais mais sofisticados. As metas de 2026 foram confirmadas, desde que não haja nova deterioração significativa no cenário francês nas próximas semanas, após um fim de semana de protestos e instabilidade política.
O que acontece a seguir também depende do futuro societário. O SMCP está à venda, com 51% do capital em jogo, em processo conduzido pelo Lazard desde novembro de 2025. A venda veio depois de uma disputa judicial sobre ações desaparecidas ligada ao ex-controlador European TopSoho, que recuperou 15,5% do capital em agosto, após decisão de um tribunal de Singapura. Pela lei francesa, quem comprar mais de 30% pode ter de fazer oferta pelas ações restantes, mas nenhum avanço foi divulgado. Para a leitora, o caso mostra como até marcas desejadas enfrentam um consumidor mais seletivo, e por que a expansão para novos mercados, como a América Latina, virou peça-chave para o setor.





