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Luxo

Soho House Tokyo: laca de Kyoto, washi e bar com telhas viradas em Aoyama

Seis anos de projeto levaram o primeiro Soho House do Japão a unir artesanato japonês e a irreverência dos clubes londrinos, no coração de Aoyama.

Redação Novidades e Joias
8 de novembro de 2026, 06h40 · 4 min de leitura
Soho House Tokyo: laca de Kyoto, washi e bar com telhas viradas em Aoyama
Arte: Novidades e Joias

Em um canto da recepção, uma máquina de vendas japonesa, toda personalizada, oferece toalhas de praia listradas. Nas paredes, obras bem-humoradas imitam recibos gigantes da Uniqlo e de lojas de conveniência. É assim, com um toque de heresia num país que trata o design como religião, que começa o Soho House Tokyo, o primeiro endereço da marca no Japão, inaugurado no verão em Aoyama, a poucos passos do cruzamento de Omotesando.

O desafio vinha de 2019, quando a rede de clubes privados com hospedagem começou a estudar a cidade. O Soho House precisava agradar a dois públicos: os membros que viajam pelo mundo e querem sentir o lugar, com gastronomia e cena criativa locais, e os tóquiotas anglófilos, apaixonados pela alfaiataria, pelas subculturas e pelo artesanato britânicos, que buscam o clima descontraído de um clube londrino (talvez até um assado de domingo). Ajuda o fato de os clubes privados ainda serem um conceito relativamente novo na cidade, onde os poucos equivalentes costumam ter perfil mais corporativo.

Minimalismo no detalhe, maximalismo na execução

Quem assina a façanha é Domhnall Nolan, diretor de design do Soho House e declarado obcecado pelo Japão. Foram seis anos de projeto, com idas e vindas para estudar arquitetura vernacular, interiores e tradições artesanais. A ideia central, explica ele, foi encarar a marca, maximalista por natureza, diante da fama minimalista do país. “Tudo o que fazíamos pensava nessa justaposição de um detalhe minimalista com uma execução maximalista”, diz.

Na prática, a recepção tem luz âmbar, painéis quadriculados de papel washi feito à mão e um balcão de check-in revestido de laca de Kyoto. A equipe veste uniformes de denim japonês criados em parceria com a Onitsuka Tiger. Nos corredores, o washi reaparece em tom índigo, inspirado no jeans local. Nos quartos, a paleta vai do verde matcha ao vermelho escuro, e todos têm varanda, algo raro na cidade. Os suítes “Extra Large” trazem aparador com destilados japoneses, coqueteleira, conjunto de saquê em cerâmica e um telefone de disco. Há ainda uma manta de franjas tecida com retalhos de quimonos vintage na técnica sakiori, mármore verde estriado e ladrilhos salpicados de Nagoya no banheiro.

Até os quartos “Cosy” guardam histórias. Em 2023, ao montar um quarto-modelo, Nolan reparou em uma caixa de joias japonesa de laca manchada e chegou à Makino Urushi, pequena oficina familiar de Kyoto onde poucas pessoas fazem tudo à mão. Partindo de três cores-base (preto, dourado e vermelho), o ateliê cria tons de profundidade impressionante. Quando alguém sugeriu produzir mais barato na China, Nolan recusou: “Não vou à China para fazer um acabamento japonês”. O resultado está em molduras de espelho e frentes de gaveta, ao lado de pisos de parquet em padrão de tatames encaixados.

Os andares do clube: telhas viradas e lustres de Murano

Nos andares 13 e 14, ligados por uma monumental escada espiral de madeira, o diálogo entre Oriente e Ocidente fica mais sofisticado. O Club Lounge é revestido de painéis bordô brilhante, inspirados em objetos de laca, com poltronas vintage europeias e japonesas dos anos 1950 e 60, prateleiras de discos de vinil e teto de papel de parede de sea-grass com acabamentos de tatame autêntico. “Eu sabia que não seria apropriado colocar tatame de verdade no teto”, conta Nolan. “Há uma sensibilidade que os membros japoneses valorizam.”

O detalhe mais espirituoso está no bar, onde telhas cerâmicas tradicionais foram viradas na vertical para revestir o balcão, criando uma ondulação esmaltada em verde-oliva. No bar do 14º andar, lustres de Murano convivem com lanternas artesanais e um tampo de ônix em ocre e verde. É muito, reconhece a autora da matéria original, mas o conjunto acaba surpreendentemente sereno. O café da manhã japonês, servido em bandeja de madeira com salmão grelhado, tamagoyaki e verduras em louça rústica, completa a experiência.

Por que isso importa: o Soho House Tokyo mostra uma tendência forte na hotelaria de luxo, a de trocar o cenário genérico por artesanato local de verdade, produzido por oficinas pequenas. Para quem planeja uma viagem ao Japão, é também um novo endereço para observar como o design contemporâneo japonês se reinventa.

Com informações de Vogue.