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Luxo

Gayane Umerova leva o Uzbequistão ao mapa da arte com bienal, museu e Tadao Ando

Da primeira Bienal de Bucara a um museu de arte contemporânea em Tashkent, conheça a mulher que lidera o despertar cultural do Uzbequistão.

Redação Novidades e Joias
8 de novembro de 2026, 10h49 · 5 min de leitura
Gayane Umerova leva o Uzbequistão ao mapa da arte com bienal, museu e Tadao Ando
Foto: shakko / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A primeira Bienal de Bucara, cidade milenar da Rota da Seda, recebeu 1,8 milhão de visitantes. Metade deles era de uzbeques, e foi esse número que mais surpreendeu a mulher que idealizou o evento, Gayane Umerova. “Minhas expectativas são sempre muito altas, então o sucesso não chegou a me surpreender. Foi exatamente o que eu imaginei”, diz ela à Vogue americana. O que ela não previa era a mudança de hábito: viajar de Kokand até Bucara, cerca de 740 km (460 milhas), costumava acontecer só para visitar parentes. Agora, segundo ela, os uzbeques passaram a enxergar Bucara também como um destino empolgante.

O ano foi de marcos para o país da Ásia Central. Dez edifícios do modernismo soviético em Tashkent, a capital, foram declarados Patrimônio Mundial pela UNESCO e se tornaram as estruturas mais jovens do mundo a receber esse status de proteção. Em setembro, abriu o Centre for Contemporary Arts Tashkent (CCA Tashkent), o primeiro museu permanente de arte contemporânea do Uzbequistão, projetado pelo escritório parisiense Studio KO.

A mulher por trás do despertar cultural

Os cargos de Umerova ocupam um cartão de visitas inteiro. Ela chefia o Departamento de Economia Criativa e Turismo da Administração da Presidência do Uzbequistão e preside a Uzbekistan Art and Culture Development Foundation (ACDF), que fundou em 2017 para apoiar artistas visuais, escritores, gente de teatro, músicos e coreógrafos. Também preside a Comissão Nacional do país para assuntos da UNESCO, é embaixadora global do LACMA, o museu de arte de Los Angeles, e recebeu em abril de 2025 a Ordem das Artes e das Letras, da França. Quando a repórter pergunta pelo tempo livre, ela responde que não tem nenhum, embora reserve horas para o marido e as três filhas.

O escritório dela, na sede da fundação em Tashkent, traduz o estilo de gestão: o mobiliário em madeira de linhas limpas foi criado pela designer levantina Nada Debs em colaboração com artesãos uzbeques, outra ideia de Umerova. Ela explica que, como o país não tem muitos colecionadores privados erguendo museus ou obras arquitetônicas, tudo precisa começar pelo apoio do Estado para depois ganhar a sociedade. Ela atribui a onda de iniciativas, comparável à de Doha e Riad, ao investimento da liderança, em especial do presidente Shavkat Mirziyoyev. A demografia ajuda: mais da metade dos 39 milhões de habitantes tem menos de 30 anos, e é essa energia de “criar algo do nada” que, diz ela, a motivou a entrar no mundo da arte.

Do sonho de ser arquiteta ao museu de Tadao Ando

Criada em Tashkent, Umerova cresceu cercada de arte, com uma tia artista e avós colecionadores de antiguidades. Queria ser arquiteta, mas o pai a desencorajou, temendo que ela acabasse nos bastidores de grandes projetos, “como uma secretária de um grande escritório”. A paixão voltou por outro caminho: da defesa do patrimônio na UNESCO às parcerias com o Studio KO e com o arquiteto japonês Tadao Ando, que assina o novo Museu Nacional do Uzbequistão, com inauguração prevista para 2028. Parte da formação dela foi no Reino Unido, e foi na Europa que viu o que queria levar para casa. “Eu nunca tinha visto museus como o Pompidou, que na época me parecia extravagante”, lembra. “Me inspirei não só na arte, mas nos prédios que a abrigam.” De 2008 a 2017, foi curadora sênior da Galeria de Arte do Uzbequistão, até criar a ACDF.

Boa parte da equipe de cerca de 50 pessoas da fundação já viveu ou estudou no exterior. Umerova conta que a nova geração quer ter orgulho de dizer que é do país, e que fortalecer a educação artística desde cedo virou uma “ambição coletiva”. Nessa frente, a ACDF liderou a reforma da Biblioteca Nacional Infantil, instalada desde 1965 em uma mansão do século 19 em Tashkent. Ela também quis mudar a visão sobre o artesanato: muitos mestres uzbeques se veem apenas como fabricantes, não como artistas, um reflexo do período pós-soviético, quando tudo o que era contemporâneo parecia estrangeiro. Sem desprezar ofícios como entalhe em madeira e fabricação de papel, ela defende que arte e design contemporâneos também floresçam. Em 2022, a fundação firmou parceria com a Michelangelo Foundation, e o Uzbequistão foi o primeiro país da Ásia Central a entrar no Homo Faber Guide, plataforma digital que reúne mestres artesãos e ateliês do mundo todo. O país ainda enviou representantes à Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2021, e à Bienal de Arte, em 2022.

Uma das vitrines desse movimento é a artista uzbeque Aziza Kadyri, radicada em Londres, que une suzani, o tradicional têxtil bordado à mão, e inteligência artificial. Ela integrou o pavilhão nacional na Bienal de Veneza de 2024, foi convidada para a Bienal de Bucara e tem uma instalação no Victoria & Albert Museum, em Londres, em diálogo com a coleção histórica de suzanis da casa, em cartaz até 10 de janeiro de 2027.

Por que isso importa? A história de Umerova mostra como cultura, arquitetura, artesanato e turismo podem se somar para reposicionar um país inteiro no circuito internacional. Para quem acompanha viagens, design e o mercado do artesanato de luxo, o Uzbequistão passa a ser um destino a observar, com um museu de Tadao Ando a caminho.

Com informações de Vogue.