Dois padrões exclusivos, nascidos de uma viagem ao Japão, estampam a nova cápsula da Hanro com a designer londrina Bethan Laura Wood. A parceria chega num momento de virada para a grife suíça de moda íntima, fundada em 1884 e hoje com 142 anos, que acaba de ganhar um novo comando.
Bethan Laura Wood é conhecida pelo estilo exuberante e lúdico, tanto nos projetos quanto no visual pessoal. Já colaborou com Cassina, Cc-tapis e Baccarat, além de casas de moda como Hermès, Valextra, Dior e Serapian. Na Hanro, ela transformou em estampa o que viu nos interiores japoneses: a marcenaria típica, o trançado de cordas e as telas shoji, aquelas divisórias de papel que filtram a luz.
Do quimono ao lenço de bolso
A cápsula integra a linha Atelier e reúne um conjunto de lingerie, um pijama, shorts de algodão e um conjunto de seda com top e calcinha. Há também um quimono, um lenço de bolso e um lenço de pescoço. Os materiais principais são algodão, seda e viscose. Segundo a designer, em comunicado, ela se encantou com a relação entre arquitetura, tecidos e o modo como a luz transforma um ambiente. Seu objetivo era traduzir essas impressões em padrões expressivos e, ao mesmo tempo, íntimos.
Quem assina a estratégia por trás da parceria é Benjamin Isenheim, ex-executivo do grupo alemão S.Oliver, que assumiu como CEO em julho. Para ele, a Hanro não deve tratar sua história como peça de museu, e sim trazer o arquivo para o presente. Colaborações, diz, aproximam públicos diferentes e apresentam a herança da marca a quem ainda não a conhece. Ele afirma que a Hanro não precisa correr atrás de tendências, mas pode se abrir a outros olhares culturais. A mesma lógica orientou o evento Soft Motion, no salão Clärchens Ballhaus, em Berlim, que marcou a estreia nas lojas da coleção outono 2026.
O plano para 2027 e 2028
Depois de meses em modo de observação, o CEO define como prioridade fortalecer os produtos-assinatura, como as linhas Cotton Seamless e Cotton Sensation, já que o algodão está no centro da identidade da marca. Ele também quer explorar peças híbridas, que sirvam para o dia, para ficar em casa, para dormir e até como camada externa. A tendência conversa com a última temporada de moda, em que o sutiã ganhou destaque nas passarelas da primavera 2027. Isenheim diz, porém, que a Hanro não vai se reposicionar como marca de prêt-à-porter.
A partir de 2027, a linha principal receberá detalhes mais femininos, como renda e aplicações, ou ajustes nas silhuetas-chave. Em 2028, reedições de peças do arquivo deixarão de ser exclusividade de cápsulas e lançamentos especiais e entrarão na coleção regular.
Nos negócios, a Hanro depende muito do atacado, com cerca de 2 mil revendedores no mundo, 70 deles contas-chave. Também mantém 13 lojas próprias, em cidades como Nova York, Gstaad, Amsterdã, Londres e Roma. Uma boutique em Tóquio deve abrir até o fim de 2027, e a Alemanha está no radar. Os principais mercados são Suíça, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Taiwan. O CEO não revelou o faturamento, mas mira crescimento anual de dois dígitos, puxado pelas vendas diretas ao consumidor. A expectativa é que o e-commerce passe dos atuais 15% para 20% da receita em 2027.
Por que isso importa: a Hanro mostra um caminho que muitas marcas centenárias tentam seguir, o de usar o acervo como ativo criativo sem virar nostalgia. Ao somar um nome do design contemporâneo, peças versáteis e expansão no varejo próprio, a grife aposta que valor percebido, e não só custo de produção, deve guiar a conversa sobre preço.





