Menos de 1% do lixo têxtil da Europa vira fibra nova. É esse o ponto de partida de um alerta publicado pela WWD e assinado por Erik Lagerblad, CEO da Looper Textile Co., e Jonatan Janmark, CEO da Circulose. Para os dois, a União Europeia está prestes a criar uma exigência de conteúdo reciclado na moda sem ter garantido que haverá fibra suficiente para cumpri-la.
A regra em preparação é o Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR, na sigla em inglês). A expectativa é que ele fixe percentuais mínimos de material reciclado em têxteis, com o ato delegado previsto, de forma indicativa, para 2027. Os recicladores já propuseram 10% até 2028. Quando isso valer, comprar fibra reciclada deixa de ser ambição de marca e passa a ser condição de acesso ao mercado europeu.
Uma tecnologia que funciona, mas não dá retorno
Os autores falam do que veem em suas operações. Na unidade da Looper em Polch, na Alemanha, uma linha automatizada de infravermelho próximo identifica as peças pela composição da fibra. Ela foi montada a partir de 2023 e funciona, mas segue como projeto-piloto, porque ampliá-la ainda não devolve o capital investido. Segundo Lagerblad e Janmark, a Looper perde dinheiro a cada tonelada triada para reciclagem.
Já a Circulose, em Sundsvall, na Suécia, produz celulose a partir de resíduos têxteis ricos em algodão. É a primeira fábrica de reciclagem química têxtil em escala comercial do mundo, e a produção será retomada no quarto trimestre de 2026. A unidade foi construída pela Renewcell, que provou que a tecnologia funcionava em escala, mas encontrou um mercado despreparado: a fibra reciclada custava mais que a virgem, nenhuma marca era obrigada a usá-la e a triagem era imatura. Hoje, 15 marcas já assumiram compromisso de volume, e o estoque existente cobre a demanda durante a retomada. A empresa quer abastecer-se com resíduo pós-consumo europeu, mas diz que o material triado não existe nos volumes necessários e custa mais do que a conta permite.
O dinheiro existe, mas paga pela coisa errada
A Global Fashion Agenda e a ReHubs estimam em 8 a 11 bilhões de euros (cerca de R$ 50 bilhões a R$ 70 bilhões, em conversão aproximada) o investimento para criar a capacidade de reciclagem de que a Europa precisa. Parte da verba já está desenhada: pela diretiva revisada de resíduos, cada país da UE deve ter, até abril de 2028, um sistema de responsabilidade estendida do produtor (EPR) para têxteis, financiado por marcas e varejistas que colocam roupas, calçados e acessórios no mercado. As taxas cobrem triagem e reciclagem, não só a coleta.
O problema, argumentam os executivos, está no critério de pagamento. A França, que opera o modelo há mais tempo, paga os triadores por tonelada, e o material destinado ao mercado de segunda mão rende praticamente o mesmo que o triado conforme a especificação de reciclagem, que exige identificação da fibra, mais processamento e tolerâncias bem menores. O apoio foi elevado neste ano para 268 euros por tonelada (cerca de R$ 1.700, conversão aproximada), em caráter temporário. Segundo os autores, isso mantém alguns operadores à tona, mas não cria um negócio atraente para investidores.
Eles propõem três mudanças. Primeiro, que os sistemas de EPR paguem mais pelo material que atende à especificação de reciclagem do que pelo destinado ao brechó, com o mesmo orçamento total distribuído de outra forma. Segundo, que as marcas que usam conteúdo reciclado paguem taxas menores, com desconto grande o bastante para mudar o que elas compram. Terceiro, que as regras sejam harmonizadas no mercado único, para evitar 27 sistemas distintos, algo viável para grandes operadores e proibitivo para os pequenos.
Para a leitora que acompanha o mercado de moda, o recado é de bastidor e de custo. Lagerblad e Janmark afirmam que os valores estão sendo definidos agora, país a país, e que representantes dos produtores têm assento nos órgãos que moldam as regras. Se as marcas não pedirem que a fibra reciclada tenha valor, avisam, a exigência chegará sem oferta por trás, e todas as grifes europeias disputarão o mesmo material escasso.





