Uma loja onde cerca de 60% das superfícies são cobertas de sal, incluindo arcos de quase cinco metros de altura. É assim que a Ecoalf, marca espanhola de moda sustentável, acaba de inaugurar sua segunda unidade em Barcelona, na célebre avenida La Rambla. O espaço tem cerca de 300 m² (3.229 pés quadrados) e levou meses para ficar pronto, porque a marca desenvolveu têxteis próprios, pensados para uso na construção, para revestir o ambiente.
A ideia nasceu há dois anos, a partir de “La Sal”, pavilhão temporário dos arquitetos José Rodríguez e Carlos Montes, instalado em San Fernando, em Cádiz, durante o TAC! Urban Architecture Festival. O evento usa a arquitetura para ativar espaços públicos e estimular conversas sobre sustentabilidade e cultura nas cidades.
Uma homenagem ao oceano, com gaivotas de palmeira
O conceito celebra o mar. Há gaivotas feitas de palmeira, painéis e expositores de madeira e um piso de aspecto orgânico produzido com plástico reciclado certificado B Corp. “Para nós, cada loja precisa ter uma narrativa própria e algo a ver com a cidade”, afirma Javier Goyeneche, fundador e presidente da Ecoalf.
A lógica já apareceu em outras praças: Valencia ganhou o tema dos pescadores, e a flagship de San Sebastián usa papelão. A loja de La Coruña, prevista para o fim de novembro, será inspirada em frutos do mar. Palma de Mallorca recebe a próxima, na primavera.
Varejo no centro da estratégia
O varejo virou prioridade. Segundo Goyeneche, o equilíbrio entre categorias ajudou: os casacos e agasalhos, que já responderam por 76% das vendas, hoje são 41%, o que distribui melhor o fluxo de clientes ao longo do ano. Outra vantagem é o controle do discurso. A marca não faz promoções nem Black Friday (chega a criar campanhas contra a data), algo difícil de garantir no atacado. Com cerca de 24 flagships, a Ecoalf obtém aproximadamente 30% da receita no varejo físico e 24% no e-commerce. O restante ainda vem do atacado.
Em 2025, as vendas somaram 64,8 milhões de euros (cerca de R$ 410 milhões, em conversão aproximada), alta de 13% sobre 2024. O Ebitda foi de 5,6 milhões de euros (cerca de R$ 35 milhões), ou 9% da receita. Para 2026, o presidente projeta salto de 20%, a cerca de 80 milhões de euros (perto de R$ 500 milhões), com margem Ebitda de 10% a 11% e lucro de 3 milhões de euros (cerca de R$ 19 milhões).
A empresa também adotou a chamada contabilidade dupla, com a primeira divulgação de um Impact P&L, demonstrativo de impacto desenvolvido por instituições do Capitals Coalition, entre elas a Impact-Weighted Accounts Initiative, da Harvard Business School. Os resultados preliminares indicam que a Ecoalf gera 0,02 euro de impacto líquido positivo para a sociedade e o planeta a cada euro de receita, enquanto a referência do setor de vestuário é um impacto negativo de 0,06 euro. “Prova que, quanto mais crescemos, mais impacto positivo podemos criar”, diz Goyeneche. Para ele, lucrar já não basta: é preciso medir contra quem se lucra.
O que vem a seguir é a expansão: Alemanha, Áustria e Suíça, França, Reino Unido e Escandinávia estão no radar, e os Estados Unidos são a meta do próximo ano. O país chegou a ser o terceiro maior motor do e-commerce da marca até a entrada das tarifas. Para a leitora brasileira, o caso mostra como lojas conceituais e prestação de contas transparente podem andar juntas na construção de uma grife de moda com propósito.





