Um terreno que valia cerca de R$ 400 por metro quadrado em meados de 2019 hoje é vendido por mais de R$ 4 mil em condomínios fechados de Ribeirão Preto. É o retrato mais extremo da corrida ao interior paulista desde 2020, que valorizou casas de alto padrão e mudou a rotina de muitas famílias.
Segundo João Marcelo Andrade, CEO da Habiarte, incorporadora com forte presença na cidade, os terrenos se valorizaram de sete a oito vezes no pós-pandemia, e as casas prontas, de quatro a cinco vezes. Imóveis que antes saíam por R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões passaram a ser negociados por R$ 8 milhões ou R$ 9 milhões. O executivo atribui o salto a uma demanda repentina por casas com piscina e churrasqueira, muito acima do que a oferta conseguia entregar. Hoje, diz ele, comprar o lote e construir pode sair mais caro do que adquirir uma casa pronta.
Três perfis de comprador, não um só
O movimento costuma ser tratado como uma onda única, mas o economista Robson Gonçalves, professor da FGV, o divide em três grupos. O primeiro é o da casa de campo, de famílias que já fugiam do estresse da capital e passaram a frequentar o interior também nas férias escolares. O segundo é o do segundo imóvel: quem mantém a casa em São Paulo e compra outra no interior para o trabalho híbrido, com cerca de três dias na capital e dois em home office. O terceiro é o da mudança definitiva, em que a família vende o imóvel paulistano, às vezes fica só com um estúdio como base e leva filhos, escola, clube e médicos para o interior.
Gonçalves lembra que esse movimento depende de renda. Quem tem de um a dois salários mínimos per capita tende a se fixar onde está, por falta de crédito e de flexibilidade no trabalho. A mudança começa a aparecer a partir de dois a três salários mínimos per capita e ganha força acima de três, ou seja, na classe média para cima. Ele observa ainda que a população paulista cresce bem abaixo do número de domicílios, em parte pela maior compra de segunda residência.
Campinas lidera a alta do metro quadrado
Os dados da FipeZAP enviados à Forbes mostram Campinas com a maior valorização do preço médio do metro quadrado desde 2021: alta de 11,2%, para R$ 8,18 mil ao fim de setembro. São José dos Campos avançou 9,6%, para R$ 9,66 mil. No mesmo período, a capital paulista subiu 3,6%, para R$ 12,2 mil. Rafael Nogueira, diretor de incorporação da Perplan, afirma que Sorocaba, Campinas, Rio Preto e Ribeirão tiveram um boom depois de 2020, sobretudo em condomínios bem localizados e cidades com infraestrutura, mercados que segundo ele vinham com preços abaixo do que deveriam. Jundiaí, que permite ir e voltar da capital com facilidade, ganhou um público fiel entre quem mantém a primeira residência na região.
A migração também mudou o recrutamento das empresas. Carlos Cêra, cofundador da Superlógica, conta que a companhia, sediada em Campinas, passou a contratar executivos dispostos a aceitar salários menores em troca de qualidade de vida. Segundo ele, cerca de dez profissionais qualificados, antes difíceis de achar na cidade, chegaram assim.
O que vem a seguir é menos linear. Com a volta ao presencial, que ganhou corpo no segundo semestre de 2024 e se intensificou em 2025, parte da fuga da capital se reverteu, e Nogueira já considerava essa leva volátil. O efeito inverso aparece nos escritórios: faltam grandes lajes em São Paulo, e boa parte dos imóveis Triple A cobra mais de R$ 300 por metro quadrado ao mês. Para quem pensa em comprar ou investir, o recado é que o interior segue valorizado, mas em ritmos muito diferentes de uma cidade para outra.





