Sessenta e três saias na Prada. Oitenta e três pares de sapatos na Chanel, um para cada look. Óculos de lentes esbugalhadas e cintos gigantes na Celine. O que une tudo isso? São as chamadas peças-herói, itens tão marcantes que sozinhos definem uma coleção, e elas tomaram as passarelas da temporada primavera 2027, segundo levantamento da Vogue americana.
Não se trata da volta da logomania de antes da pandemia, com cinto de logotipo duplo e camiseta estampada com a grife. Também não é só um revival da estética excêntrica que fez a fama dos blogs de moda dos anos 2010. A graça agora está em um sistema de sinais mais refinado, pensado para um público digital que entende de moda: às vezes, a ponteira azul-petróleo em contraste num scarpin já diz tudo.
O fim do luxo discreto e a cliente que quer personalidade
Já se falou muito sobre o fim do quiet luxury, o luxo silencioso e sem logos. As vibrantes coleções masculinas do verão europeu, segundo a Vogue, encerraram de vez a conversa. Nos bastidores, a simpatia por peças de impacto vinha crescendo, e há quem aponte como marco a única coleção de Dario Vitale para a Versace, com saias lápis e sapatos gráficos e coloridos. “Estavam em todos os executivos e editores do setor em setembro”, disse Chloe King, da Neiman Marcus e da Saks Fifth Avenue.
Tory Burch resume o momento: “Hoje existe um cansaço com a perfeição e a previsibilidade, e um desejo de individualidade”. Segundo a estilista, sua cliente procura peças com personalidade, humor, cor e detalhe, como cardigãs bordados, óculos oversized, ferragens pierced em trompe l’oeil e sapatos e bolsas tecidos à mão. Os sapatos pierced, lançados na coleção de primavera 2023, continuam entre os maiores sucessos da marca.
Julian Klausner, da Dries Van Noten, notou o mesmo depois de seu desfile de glamour retrô. Para ele, desta vez as pessoas reparam menos na imagem geral do show e mais em itens específicos: uma bolsa, um sapato, uma jaqueta, uma camiseta.
Os números confirmam. De acordo com o Google Trends, as buscas por cintos statement, como os vistos na Celine, na Valentino e na Chopova Lowena, subiram 350%. As de colares statement, do tipo “tudo e mais a pia da cozinha”, cresceram 250%. Miuccia Prada e Raf Simons defenderam o poder da saia como protagonista e dispensaram as calças; The RealReal e eBay já registram mais buscas por saias Prada vintage.
Sapatos, estilistas-celebridade e a compra como “pedaço da história”
O calçado ganhou destaque especial, com os scarpins perfurados da Prada e os saltos curvos da Jil Sander. Esses modelos são mais difíceis de encontrar no mercado de segunda mão, o que empurra os acessórios para o centro da cena. O consultor de luxo Robert Burke disse à Vogue Business que não se lembra de uma temporada, em muitos anos, com foco tão forte em calçados, uma aposta deliberada em sapatos criativos capazes de transformar um look. A Chanel de Matthieu Blazy levou o conceito ao extremo, com 83 pares únicos na passarela.
Outro fator é o culto ao estilista-celebridade. Os primeiros lançamentos da Chanel de Blazy causaram furor em Paris e em Nova York. “Mesmo que a peça não seja novíssima, se ela captura uma sensação fresca, como Matthieu está fazendo, há uma razão para investir, porque captura o momento. É quase como comprar um pedaço da história”, afirmou Jalil Johnson, autor de uma newsletter de estilo. Na Celine, de Michael Rider, fãs recriam no TikTok as faixas cummerbund do desfile masculino, e conseguir os kitten heels ultrabaixos da coleção de outono ou certas cores das bolsinhas smiley da linha luggage virou missão difícil. Johnson contou que vendedoras parisienses chegaram a dizer: “É um item quente, esconda”.
Por que isso importa? A lição da temporada é que a peça-herói saiu da vitrine e foi para a rua. “O que adorei na primavera 2027 foi a ideia de que esses itens não precisam ser guardados para uma ocasião especial nem usados com parcimônia”, disse King. Para a consumidora, a mensagem é investir em uma peça com identidade e usá-la sem cerimônia, enquanto o mercado de revenda e as buscas online mostram que a procura por esses ícones só tende a crescer.





