O jeans do futuro pode ter elastano feito de cana-de-açúcar, algodão de cultivo regenerativo e acabamento criado a laser. Foi isso que a Kingpins Amsterdam, feira B2B dedicada ao denim, mostrou na semana passada, ao reunir tecelagens, fabricantes de fibras, empresas de tecnologia e designers em coleções-cápsula que transformam ideias ousadas em produtos prontos para o mercado, conforme noticiou a WWD.
Um dos acordos de maior peso foi assinado ali mesmo: a fabricante suíça de químicos especiais Archroma e a tecelagem chinesa Prosperity Textile vão desenvolver, avaliar e aplicar juntas novas soluções para melhorar a estética, a durabilidade e o desempenho do jeans. Stafford Lau, diretor da Prosperity, afirmou que as fábricas inteligentes da empresa na China e no Vietnã permitem testar ideias com rapidez e levar as melhores à produção. Para Jordi Calucho, diretor de sistemas de denim da Archroma, “uma inovação só importa quando chega ao mercado”, e isso exige um parceiro para moldá-la, testá-la e produzi-la em escala.
Fibras que mudam o jeito de fazer jeans
A fabricante de elastano Hyosung TNC foi o ponto de partida de várias colaborações. Com a tecelagem turca Maritaş, combinou algodão de práticas agrícolas regenerativas cultivado na Turquia com elastano reciclado certificado RCS, produzido na unidade turca da Hyosung, uma proposta pensada para marcas europeias que querem uma cadeia de suprimentos regional. Já a taiwanesa Nien Hsing uniu a fibra de elastano 100% reciclada da Hyosung ao Tencel Lyocell HV 100, para obter jeans com aparência e textura autênticas e o conforto do stretch reciclado.
A terceira parceria, com a DNM Denim, produziu tecidos com mais de 20% de algodão reciclado pós-consumo e o elastano regen BIO Max, derivado de cana-de-açúcar. A produção comercial desse spandex de base biológica começou em agosto e, segundo a fonte, é o primeiro sistema integrado do setor a funcionar, ligando toda a cadeia, da cana ao produto final. A capacidade atual chega a 50 mil toneladas por ano, com plano de expansão para até 200 mil toneladas conforme a demanda.
A Lenzing, por sua vez, firmou parceria com a japonesa Kaihara Corporation e criou a coleção REMOD, com três versões de lyocell: o Tencel padrão, o Tencel dtex 2.2, de inspiração linho, e o Tencel Lyocell HV 100. O resultado inclui jaquetas masculinas de tecido pesado, jeans de perna ampla de peso médio e camisaria, com construções com e sem algodão. Segundo Dennis Hui, da Lenzing, cada variante traz “caráter autêntico de denim com conforto e toque elevados”.
Arte, memória e ateliê
Na entrada da feira, a instalação “Four Breaths of Blue”, da artista Isha Pimpalkhare, de Munique, recebia o público. A obra parte do aprofundamento gradual da cor do índigo a cada mergulho e exposição ao oxigênio. A técnica, uma reinterpretação do Devore, usa ácido para corroer áreas do algodão tingido, enquanto uma malha fina de poliéster mantém os fragmentos unidos. A curadoria é do Indigo Art Museum, com apoio da fabricante indiana Arvind.
Entre os destaques criativos, a Stella Blu e o artista Nouch criaram “Material Intent”, série de 100 peças limitadas com bolsas de denim que imitam sacolas plásticas descartáveis, cada uma ilustrada com um animal diferente. A Cone Denim celebrou 135 anos exibindo peças inéditas, escolhidas por refletirem a vida de quem as usou, e a London Showroom apresentou “Blue-Collar Modernism”, inspirada em Fleet Street, berço da imprensa britânica, com visual workwear mais limpo do que nas edições anteriores, antes marcadas por reparos e lavagens desbotadas.
A Kingpins também levou à terceira edição a série “Made in”, desta vez dedicada à China, com expositores mostrando como enxergam o futuro do jeans no país. A CEO Vivian Wang disse que os participantes combinam tradição e tecnologia, trabalho manual e pensamento de nova geração. A mostra incluiu o filme “Indigo Story: The Hands That Remember”. Já a Jeanologia e a consultora Sue Barrett lançaram a Common Ground, linha utilitária inspirada na natureza, com modelagens workwear e militares, estampas naturais, detalhes a laser e acabamentos vintage, feitos com laser e a tecnologia G2 Ozone. A italiana Officina39 estreou a Renegade Renaissance, coleção de duas peças com materiais pouco convencionais, criada com Marta e Glenda Goldschmied, fundadoras da Gold Girl Co.
Para quem acompanha moda, o recado é claro: o jeans segue como um dos territórios mais férteis de experimentação do setor, e as parcerias entre fibra, tecelagem e design é que definem o que chegará às vitrines nas próximas temporadas. Reciclagem, origem rastreável e acabamentos de baixo impacto deixam de ser nicho e entram no centro da conversa.





