Copos de café e latas de bebida jogados pela passarela foram o primeiro sinal de que o desfile de Mikio Sakabe na semana de moda de Tóquio não seria um espetáculo convencional. A coleção de primavera 2027 foi apresentada na La Foret, célebre shopping de Harajuku voltado ao público adolescente, e tratou de um tema pouco óbvio: a busca por uma fonte de fantasia.
O ponto de partida do estilista foram as revistas japonesas de gravure, publicações de apelo vagamente erótico, voltadas ao público masculino, que mostram modelos de olhar arregalado posando de lingerie, roupa de banho ou fantasia. Sakabe resumiu a ideia como um desfile de maiôs realizado dentro de um shopping center.
Brilho, exagero e uma pontada de tristeza
Segundo o estilista, há algo interessante na ideia de um desfile dentro de um shopping japonês de moda: o ambiente parece luminoso e chamativo, mas também um pouco triste. O lixo espalhado pela passarela foi proposital e serviu para reforçar esse contraste.
Biquínis diretos se alternaram com a assinatura de Sakabe: alfaiataria e camisaria oversized, desconstruídas, recortadas e sobrepostas em formas caóticas. Algumas peças ganharam babados, outras apêndices moles que lembravam orelhas de coelho. Todas as modelos usaram as perucas em formato de capacete que cobrem os olhos, marca registrada do estilista nas últimas temporadas. Sobre elas, ele disse apenas que gosta delas, sem saber bem por quê.
O que unia os looks, além das perucas, eram os tênis de sola bolha do Grounds, projeto de calçados que se tornou grande sucesso. Fundado em 2019, o Grounds hoje emprega cerca de 100 pessoas no mundo.
A fuga da realidade e sua inutilidade
Sakabe estudou em Antuérpia e foi colega de classe de Demna. Especialista em garimpar a cultura underground e transformá-la em moda por vezes irônica, mas ainda assim desejável, ele conta com legiões de fãs na Ásia.
Como grande parte de seu trabalho, a coleção falou do desejo de escapar da realidade e da inutilidade de tentar fazê-lo: a superficialidade hiper-real da gravure, colocada diante do cenário banal de um shopping. O último look resumiu a proposta: um chemisier vestido pela metade, decorado com cortes prateados que lembravam portais para outro universo.
O desfile reforça o espaço de Sakabe como um dos nomes mais autorais de Tóquio, capaz de unir crítica cultural, humor e produto comercial, como mostra o crescimento do Grounds.





