Um nopal, uma trança, uma mulher preparando gorditas, um avental e um chapéu de Papantla. Foi com esses elementos que o estilista mexicano Francisco Cancino decidiu desenhar o seu próprio atlas do México para a primavera 2027, apresentada na coleção El Abrazo del Amor del Universo (O Abraço do Amor do Universo).
Nascido em Chiapas, Cancino sempre fez da sua terra natal matéria-prima de moda. Em Los primeiros mexicanos, da primavera 2024, ele investigou as origens do país. Em La Última Ciudad, do outono 2025, voltou o olhar para Tlatelolco. Agora, a proposta é outra: capturar o México como ele é hoje e, ao mesmo tempo, imaginá-lo para além de suas fronteiras.
Um atlas feito de palavras, objetos e personagens
O ponto de partida foram os atlas, esses livros universais que descrevem a geografia dos lugares, como explicou o próprio estilista nos bastidores. Com a equipe, ele criou uma versão pessoal, reunindo palavras, nomes, personagens e objetos do cotidiano mexicano. “Imaginamos que, se você olhasse para o México hoje, teria de incluir um nopal, uma trança, uma mulher fazendo gorditas, um avental, um chapéu de Papantla”, disse.
Nada disso aparece de forma literal. As referências foram traduzidas em alfaiataria, pregas, adornos de cabeça, volumes e cores. O primeiro look resume bem a lógica: camisa branca, calça listrada de pernas largas, mocassins e um colete de corte preciso com drapeado assimétrico, assinatura de Cancino. À primeira vista, a peça parece explorar a eterna tensão entre masculino e feminino, mas a leitura mais interessante é a do equilíbrio.
Estrutura e fluidez no mesmo look
Esse equilíbrio se repete ao longo do desfile. Uma camiseta simples aparece combinada com uma saia sofisticada, e os aventais ganham lugar dentro da alfaiataria. A paleta de tons neutros e as xadrezes que lembram uniformes de trabalho dão à coleção um caráter terroso, quase tátil.
Os adornos de cabeça feitos à mão e as aplicações tridimensionais foram criados em colaboração com o artista têxtil mexicano Alejandro Rincón. Entre os destaques, um terno verde-oliva com uma flor gigante em cores vibrantes, como se carregasse um pedaço da natureza no corpo. As joias levam a assinatura de Phoebe Stephens, da Anndra Neen, marca na qual Cancino passou a atuar como diretor criativo em conjunto.
Para a Vogue, que cobriu o desfile, esta pode ser a melhor coleção do estilista até aqui, tanto pela qualidade quanto pela capacidade de transformar uma narrativa conceitual em roupas desejáveis e com apelo comercial. Ao equilibrar o instinto de mercado e as paixões pessoais, em especial a alfaiataria, Cancino elevou a própria régua. Vale ficar de olho: a parceria com a Anndra Neen e o diálogo com artesãos locais indicam um caminho em que identidade mexicana e ambição global andam lado a lado.





