Em um mundo corporativo em que apenas 5,2% dos cargos de CEO no Brasil são ocupados por mulheres, Carla Fonseca, CEO da Smiles, recusa o rótulo de que existiria um “jeito feminino” de comandar. Em entrevista à Forbes Brasil, a executiva afirmou que mulheres e homens têm as mesmas capacidades e competências, e que separar estilos em caixinhas não funciona.
Fonseca assumiu o comando do programa de fidelidade da GOL Linhas Aéreas em 2022 e acompanhou de perto o pedido de recuperação judicial da companhia nos Estados Unidos, em 2024. Desde então, a Smiles segue relevante nos resultados do grupo, em meio à reestruturação da empresa-mãe. Os números do programa aparecem nos balanços da GOL, que em 2025 registrou receita operacional líquida consolidada de R$ 22,128 bilhões, alta de 44,35% sobre os R$ 15,330 bilhões de 2024.
Da liderança no grêmio ao comando da Smiles
Fonseca conta que nunca sonhou com a cadeira de CEO, mas sempre soube que queria liderar. Na adolescência, presidiu o grêmio estudantil, onde buscava patrocínios para o jornal da escola e ouvia os colegas. Antes de chegar ao topo, foi gerente de Produtos B2C e Canais de Relacionamento e diretora da Smiles Argentina, experiência que ela vê como um ponto de virada.
Na Argentina, foi responsável por criar o programa e construir uma marca em um novo país. A operação local começou em 2018, com o objetivo de adaptar o programa ao mercado argentino. Segundo a companhia, os clientes podem acumular e resgatar milhas para voar com a GOL e com parceiras internacionais.
Solidão no topo e crenças desfeitas
Em determinado momento, a executiva achava que, como mulher, precisaria adotar uma postura mais dura. Hoje, diz ter descoberto o oposto: o que importa é estar segura do que acredita. Ela também destaca a sorte de ter tido várias chefes mulheres no início da carreira, que enxergaram seu potencial, e afirma sentir a responsabilidade de mostrar a outras mulheres que é possível chegar lá.
Os dados reforçam o desafio. O Evermonte Institute, braço de pesquisa de uma consultoria de recrutamento de executivos, apontou que as CEOs brasileiras acumulam em média 2,79 MBAs e pós-graduações, contra 1,43 dos homens. No mundo, segundo o relatório Women in the Boardroom, da Deloitte, apenas 6% dos CEOs são mulheres.
Fonseca também fala sem rodeios da solidão do cargo. Quase todas as decisões que tomou como CEO ela já havia tomado como diretora, mas antes levava a solução ao líder e decidia em conjunto. Hoje, é ela quem define o caminho, e ninguém mais divide esse peso.
IA, personalização e cultura de startup
Na gestão de Fonseca, o aplicativo e o site da Smiles ocupam o lugar que o avião tem para uma companhia aérea: são o produto principal. A prioridade é a personalização, com apoio de inteligência artificial e análise preditiva de dados para criar vitrines de acordo com o perfil e o momento de navegação de cada usuário, de conteúdos educativos para recém-cadastrados a ofertas de voos e hotéis para clientes frequentes. A empresa também desenvolveu uma ferramenta com IA para a busca de passagens, que simplifica a escolha de datas, cabines e passageiros.
Outra frente é a parceria com outros ecossistemas financeiros e de fidelidade. Com a Livelo, a Smiles lançou o Milhas na Hora: quem busca um voo sem ter milhas suficientes pode trazer automaticamente os pontos da Livelo, sem sair do site. Mesmo com mais de 30 anos de história, a CEO diz manter um ambiente de startup, com a maior parte da equipe em tecnologia e negócios voltados a produtos.
A trajetória de Fonseca importa porque une dois debates atuais: a baixa presença feminina no comando das grandes empresas e a corrida pela personalização no consumo. Para ela, os resultados dependem do engajamento diário das equipes, e, além da competência técnica, ela busca gente com vontade de fazer diferença.



