Vestidos e casacos de renda que parecem estar se transformando em cortinas e toalhas de mesa foram a imagem mais marcante do desfile de primavera 2027 de Tao Kurihara, realizado em Tóquio. A coleção se chama My True Self (“meu verdadeiro eu”) e usa o branco como símbolo de pureza e liberdade.
O desfile aconteceu logo cedo, nas entranhas da sede da Comme des Garçons, no bairro de Aoyama. Segundo a Vogue, os shows da estilista se tornaram uma espécie de deleite de fim de temporada, e esta edição manteve a fama.
Do branco ao jardim em flor
A narrativa avançou em capítulos. Primeiro vieram camadas de broderie anglaise (o bordado vazado de tradição inglesa) e uma sucessão de paninhos de crochê, os “doilies”, aplicados em casacos e vestidos carregados de renda. Depois, um bloco de alfaiataria cinza e mais branco, até a coleção desaguar numa profusão de detalhes florais e estampas de inspiração Liberty, em capris de algodão e saias com babados.
O cabelo das modelos tinha volume de nuvem e vinha coroado com palha e folhagens. As roupas receberam bordados botânicos criados em colaboração com a artista Hitomi Mori, cujo trabalho, segundo a Vogue, vale ser visto de perto no Instagram @nuimori1. A trilha, composta como de costume pelo marido da estilista, misturava harpas, canto de pássaros e notas de piano, reforçando o clima de livro de histórias que marca o universo de Tao.
“Como uma criança que desenha”
Depois do desfile, na sala de imprensa da Comme des Garçons, que nos dias seguintes abriga a exposição sazonal de todas as marcas da casa, Kurihara estava, como sempre, bem-humorada. “Decidi deixar de lado todas as minhas preocupações e criar algo que eu realmente, puramente, quisesse fazer. Como explicar? É como quando uma criança desenha: ela não pensa em ser elogiada. É esse tipo de mentalidade, um estado de foco total e genuíno”, afirmou.
Ela ponderou que a fala pode soar como se seus trabalhos anteriores não tivessem sido assim, mas disse sentir que, desta vez, destilou tudo até chegar só ao que desejava criar do fundo do coração. Segundo a Vogue, a coleção não se perdeu em sentimentalismo nem em nostalgia: ela simplesmente existe.
Há também um recado de negócio. Criatividade e comercialidade não precisam ser excludentes, lição que Rei Kawakubo, fundadora da Comme des Garçons, há muito transmite a seus pupilos. O bordado de Hitomi Mori, difícil de produzir em escala, foi ampliado e estampado em vestidos e camisetas, o que permite que mais gente tenha acesso a ele. É a prova de que uma coleção feita sem pensar em aplauso pode, ainda assim, chegar às araras.





