Catorze anos longe do teatro, um prêmio Olivier e um papel em que ela jamais deixa o palco: Rosamund Pike, 47 anos, chega à Broadway em novembro com Inter Alia, drama jurídico e doméstico da dramaturga Suzie Miller. A atriz, famosa mundialmente por Garota Exemplar, conta à Vogue americana que o retorno é uma volta para casa: “Sempre foi onde senti que pertencia”.
Na peça, ela vive a juíza Jessica Parks, magistrada respeitada, esposa, mãe e especialista em equilibrar mil tarefas ao mesmo tempo. O título, expressão em latim que significa “entre outras coisas”, alude às demandas concorrentes que dão forma à vida da personagem. Em uma cena, Jessica está bêbada no banco de trás de um táxi; em outra, desaba ao ver o filho acusado do tipo de crime que ela costuma condenar em tribunal. Pike entra em cena subindo por um alçapão, como uma estrela do rock, e não sai mais.
Uma trilogia jurídica e um papel físico
Inter Alia é a segunda peça da trilogia jurídica planejada por Suzie Miller, que começou com Prima Facie, estrelada por Jodie Comer. Aquela também saiu de Londres rumo a Nova York, em 2023. A nova obra estreou no National Theatre, seguiu para o West End e rendeu a Pike o Olivier, principal prêmio do teatro britânico.
O papel exige muito do corpo. Pike manipula utensílios de cozinha e troca de toga de juíza para avental e depois para um vestido de noite justo, sem sair de cena. Para ela, parir e atuar não são experiências tão distantes: nos dois casos, diz, a pessoa é um canal por onde algo passa, sem saber o que será e sem poder controlar. Ela também relembra que, quando jovem, chegou a esquecer que tinha corpo, tamanho era o foco em seu rosto. Sobre uma cena de nudez no palco aos 20 e poucos anos, diz que gostaria de ter recebido orientação e de ter se sentido “montanhosa, em vez de pequena e preocupada”.
As fotos da reportagem, assinadas por Jelka von Langen e Roman Goebel, trazem Pike de camisa e saia Phoebe Philo e, em outro registro, de Tod’s. Jamie Glover, que faz o marido de Jessica, aparece com uma jaqueta Polo Ralph Lauren. Durante o encontro com a repórter, a atriz, de top preto e saia plissada, torceu a peça para ler a etiqueta quando perguntada sobre a grife, um gesto que revela o lado brincalhão por trás da compostura.
Dos holofotes de Bond ao ônibus para o ensaio
Pike nasceu e cresceu no oeste de Londres, filha de dois cantores clássicos, e cresceu entre bastidores. Estudou Letras em Oxford, formou-se em 2001 e foi recusada ao se candidatar a uma escola de teatro. Ficou famosa aos 22 anos no filme Um Novo Dia para Morrer, da série James Bond, que descreve como um tapete mágico. Mas os voos de primeira classe e os hotéis cinco estrelas nunca lhe pareceram naturais. Ao fim das filmagens, lembra, estava no ônibus a caminho de um ensaio no Royal Court Theatre quando pensou: “É quem eu realmente sou”.
Depois vieram a Jane de Orgulho e Preconceito (2005), o papel em Educação (2009) e a psicopata de Garota Exemplar (2014), de David Fincher. Hoje ela mora no norte de Londres com o empresário Robie Uniacke, seu parceiro desde 2009, e os filhos Solo, 14, e Atom, 12. O casal tem uma produtora de cinema e TV que busca livros estrangeiros, em especial chineses. Foi assim que desenvolveram O Problema dos 3 Corpos, de Liu Cixin, para a Netflix, e adquiriram A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da Nobel Svetlana Aleksiévitch.
Ao receber o Olivier, Pike agradeceu ao companheiro e apontou uma ironia: estava fazendo uma peça sobre o malabarismo da mulher profissional, mas só podia fazê-lo porque tinha um homem maravilhoso em casa cuidando dos filhos. Esse é, talvez, o ponto que mais ressoa com o público feminino. Quando Inter Alia abrir em Nova York, a plateia verá uma das atrizes mais elegantes do cinema numa atuação que, segundo a Vogue, está entre as melhores de sua carreira.





