Um jovem investidor de tecnologia, de 32 anos, foi apresentado a um relógio de mesa Cartier sem que ninguém esperasse uma venda: o negociante só queria mostrar uma peça que achava curiosa. Um ano depois, o cliente já tinha reunido 11 deles, produzidos entre 1905 e 1925. Hoje, os relógios ficam atrás de sua mesa minimalista de vidro, em Mayfair, como um pequeno museu da Belle Époque. O autor da façanha é Charlie Barron, de 31 anos, perfil publicado pela Robb Report.
Esse tipo de conversão virou especialidade de Barron. A maior parte de seus clientes tem menos de 40 anos e, até pouco tempo atrás, jamais havia pensado em comprar joias antigas ou relógios históricos. Segundo ele, o trabalho é engajar e educar jovens colecionadores sobre essas peças “mágicas”. Sua fórmula une conhecimento técnico, acesso e um charme à moda antiga.
Peças que nunca passaram por leilão
O grande trunfo está na origem do estoque. Barron compra joias finas e pedras preciosas para colecionadores privados e para o mercado, e boa parte do acervo vem de espólios de famílias europeias. Ele evita de propósito as casas de leilão: como o preço de venda de qualquer lote pode ser consultado por todos, prefere peças que ainda não foram vistas em público. Também afirma pagar mais que os concorrentes por coleções particulares e joias raras, porque pensa em relações de longo prazo, não em lucro rápido.
Às vezes, a raridade bate à porta. Em julho, um rapaz foi ao salão de Barron em busca de um anel de noivado e ofereceu a broche da avó como parte do pagamento. O negociante reconheceu na hora o valor da peça, do final do século 19, com uma importante esmeralda colombiana e diamantes, e fez uma oferta de 220 mil libras (cerca de US$ 300 mil, algo em torno de R$ 1,6 milhão em conversão aproximada). Barron também adquiriu uma esmeralda de 30 quilates com proveniência da Rússia imperial e a vendeu a quem chama de “um dos grandes joalheiros contemporâneos”.
O estoque lembra uma escavação arqueológica glamorosa. Há um anel Cartier Paris com diamante lapidação esmeralda de 12 quilates, uma esmeralda colombiana de 35 quilates entalhada como cabeça de Medusa, por volta de 1800, um colar de contas da Mesopotâmia e um colar de ouro trançado com 28 quilates de diamantes old mine cushion.
Do ateliê de Harry Fane às pérolas dos Mares do Sul
Barron negocia joias desde os 22 anos e abriu seu salão na Bruton Street, em Mayfair, em 2024. O espaço fica no antigo andar superior de Harry Fane, autoridade celebrada em relógios, relógios de mesa e joias Cartier, que morreu em 2023, aos 70 anos. Os dois já faziam negócios juntos antes disso.
A paixão vem de família: avô e bisavô eram comerciantes de pérolas na Austrália e na Europa. Aos 9 anos, numa viagem a Sydney para visitar a Paspaley, lendária fonte de pérolas dos Mares do Sul, ele ficou fascinado pelo cofre da empresa e decidiu seguir o mesmo caminho. Depois do colégio interno, trabalhou com pérolas no Japão, na Austrália, nas Filipinas e no Taiti, formou-se em gemologia, aprendeu lapidação de diamantes na Royal Asscher, em Amsterdã, e atuou numa grande fábrica de joias em Bangkok. Foi lá que percebeu que as melhores joias do mundo foram feitas há muito tempo.
Em 2024, com sócios, Barron adquiriu o estoque de milhões de pérolas da nova-iorquina Assael. Segundo ele, grandes casas americanas e europeias o procuram hoje quando precisam de pérolas dos Mares do Sul de 17 a 19 milímetros. Parte das peças mais amadas vira matéria-prima da sua própria linha, By Barron, com pedras antigas em desenhos sóbrios e contemporâneos. Para o amigo Joe Spiro, da joalheria Glenn Spiro, ele busca peças com alma, não apenas antigas.
O caso importa porque mostra uma nova geração, criada na economia digital, descobrindo o valor de objetos com história. Para Barron, o encanto não está só por onde as peças passaram, mas para onde ainda podem ir.





