Duas das marcas de calçados mais desejadas do momento, Ugg e Hoka, estão sob os holofotes do mercado financeiro. A Deckers Brands, empresa que controla as duas grifes, divulga na quinta-feira o balanço do segundo trimestre, e os analistas de Wall Street estão longe de um consenso sobre o que virá.
A companhia, sediada em Goleta, na Califórnia, chega ao resultado com um histórico recente favorável. No primeiro trimestre, o crescimento de receita de Hoka e Ugg ficou levemente abaixo do esperado, mas o lucro superou as projeções. A Deckers manteve a previsão anual e elevou a estimativa de lucro por ação diluído do exercício fiscal de 2027 para a faixa de US$ 7,35 a US$ 7,50 (cerca de R$ 40 a R$ 41, em conversão aproximada). A faixa anterior ia de US$ 7,30 a US$ 7,45.
O que esperam os mais otimistas
Para Sam Poser, analista da Williams Trading, haverá “poucas surpresas” no balanço. Ele não descarta que a projeção de lucro por ação seja elevada de novo, em parte por causa da ampliação da recompra de ações. Para o ano inteiro, a expectativa é de alta de receita na casa de dois dígitos baixos para a Hoka e de um dígito médio para a Ugg.
No segundo trimestre, Poser projeta alta de 8,9% na receita da Hoka, com as vendas diretas ao consumidor (o chamado DTC, feito em lojas e sites próprios) subindo cerca de 16%. Nos Estados Unidos, a marca de tênis de corrida deve seguir estável, com crescimento de um dígito baixo, enquanto o mercado internacional avança dois dígitos. Para a Ugg, a estimativa é de aumento de 5,8% na receita do período.
Ainda é cedo, segundo ele, para julgar o ano da Ugg: mais de 80% da receita anual da marca em DTC, que reflete a demanda real do consumidor, se concentra na segunda metade do ano fiscal, sobretudo entre o fim de novembro e meados de fevereiro. Entre os lançamentos que o analista destaca estão a linha masculina Birch, de sapatos e botas, e a coleção western feminina, com sapatos, tamancos e botas curtas. Na Hoka, a aposta são versões Ultra de seus modelos-chave para corredores de elite, como o Bondi Ultra, de US$ 300 (cerca de R$ 1.650, em conversão aproximada), previsto para junho de 2027.
Os alertas: consumo, clima e margens
Nem todos compartilham a confiança. Jay Sole, do UBS, afirma que os dados proprietários do banco indicam tendências mais fracas do que se pensava para as duas marcas nos últimos meses. Ele vê demanda internacional sólida, mas teme que a inflação pese sobre o consumidor e enfraqueça as vendas diretas nos Estados Unidos.
Blake Anderson, do Jefferies, aponta outro risco para a Ugg: o El Niño. As previsões indicam temperaturas mais altas e inverno mais úmido no Nordeste americano, o que pode reduzir a procura por botas numa região importante. A diversificação para categorias de uso o ano todo ajuda, mas a receita segue muito exposta ao período de dezembro.
Já Kelly Crago, do BMO, iniciou a cobertura da Deckers com recomendação “Underperform”, citando a maturidade da Hoka nos Estados Unidos, a desaceleração do crescimento e a pressão sobre as margens. Ela também observa que a expansão tem dependido cada vez mais da recompra de ações. Para a Ugg, mostra cautela com o apelo de modelos que impulsionaram os últimos anos, como o Tasman e o Platform Mini, já que a gestão tem indicado categorias fora do núcleo, como a linha masculina e a sapatilha Zora, como os maiores motores de crescimento no ano fiscal de 2027.
Por isso, o balanço de quinta-feira vale mais pelos sinais do que pelos números do trimestre. Crago pede atenção à Hoka em DTC nos Estados Unidos, que pode ter ficado negativa no período, às vendas nos pontos de venda ao longo do trimestre e a qualquer sinal de promoções ou estoques elevados na temporada de festas. Para marcas que se firmaram como objetos de desejo da moda e do esporte, é o teste de quanto fôlego ainda resta.





