O vestido que a rainha Letizia da Espanha escolheu para a cerimônia do Prêmio Princesa das Astúrias, realizada na sexta-feira em Oviedo, nasceu de um jeito pouco comum na moda: primeiro veio o tecido, depois o desenho. A peça foi confeccionada em Pyratex Circ Lyocell 3, uma malha fina em que parte da matéria-prima vem de roupas descartadas.
O tecido foi desenvolvido pela Pyratex, empresa de pesquisa têxtil sediada em Madri, com material reciclado fornecido pela Circ, especialista em reciclagem de têxtil para têxtil. Segundo a Pyratex, o caimento fluido, o toque macio e a estrutura em malha orientaram os ajustes ao longo de toda a construção do vestido, em vez de o material ser adaptado a um modelo já existente.
Como uma roupa velha vira malha com brilho de seda
O Circ Lyocell 3 é feito inteiramente de lyocell, fibra celulósica regenerada. Trinta por cento da celulose usada na fibra vêm de têxteis recuperados, e os outros 70% de polpa de madeira. O resultado é uma malha com brilho sutil e caimento fluido, pensado para lembrar a seda. Quem vê a peça pronta dificilmente imagina a origem do material.
O diferencial está na tecnologia da Circ para processar tecidos mistos, sobretudo os de algodão com poliéster. Essas misturas sempre foram um obstáculo para a reciclagem, porque cada fibra exige um processo de recuperação diferente. A Circ usa um método hidrotérmico que separa a celulose do algodão do poliéster, e assim os dois fluxos de material podem ser reaproveitados em novas fibras. A celulose recuperada é transformada em lyocell e substitui parte da polpa de madeira virgem. Embora a origem sejam tecidos mistos, o tecido final da Pyratex não contém poliéster.
A parceria entre as duas empresas já dura três anos. A Circ cuida da tecnologia que recupera as matérias-primas, enquanto a Pyratex responde pelo desenvolvimento do tecido, incluindo estrutura da malha, textura, caimento e processos de fabricação, além de levá-lo ao mercado.
De Mara Hoffman a Zara e H&M
A aparição real é mais uma vitrine para a celulose reciclada da Circ, que já passou por coleções de luxo e de moda de massa. Em 2023, a empresa fez com a estilista Mara Hoffman uma série limitada de 35 vestidos em lyocell com 50% de celulose recuperada de resíduos têxteis. Também trabalhou com a Zara e o grupo H&M para levar fibras recicladas de misturas de algodão e poliéster a roupas de consumo.
Fundada em Madri em 2018, a Pyratex desenvolve tecidos para marcas de moda e luxo, com colaborações divulgadas com Dior, Balenciaga, Loewe e Rick Owens. Em junho, recebeu o prêmio de Inovação e Sustentabilidade da Academia Espanhola de Moda por Pyratex Solea, iniciativa voltada a reconstruir uma cadeia nacional de algodão espanhol.
Regina Polanco, fundadora e CEO da Pyratex, afirmou que a rainha dá visibilidade ao que importa para a sociedade e que hoje destaca o material que escolhemos vestir junto à pele. Para ela, a escolha confirma que transformar a forma de produzir moda é o caminho. O episódio importa porque mostra a reciclagem têxtil chegando a um terreno em que aparência, caimento e toque são decisivos, o da alta costura e dos eventos de gala.





