Em menos de uma década, uma marca suíça que fabrica apenas 100 relógios por ano entrou na coleção de nomes como John Mayer, Michael Jordan e Sam Altman. A Vanguart, sediada em La Chaux-de-Fonds, é hoje chamada nos círculos de colecionadores de “relógio de CEO”, embora ainda circule longe dos holofotes.
A estreia aconteceu em 2019, com o Black Hole. O mostrador de horas lembra uma nave espacial: um display em vórtice, distribuído em três discos, com um tourbillon giratório no centro. A proposta era ousada no visual, mas fiel aos códigos da alta relojoaria, do acabamento artesanal à arquitetura e aos materiais.
O Orb, o relógio que virou favorito
O segundo modelo, o Orb, levou três anos de desenvolvimento e entrou para a história como o primeiro tourbillon com seletor de função que alterna entre os modos manual e automático. Para Yoni Ben-Yehuda, chefe de relógios da Material Good, revendedora exclusiva da marca na América do Norte, o Orb se tornou uma peça “top cinco” na rotação dos colecionadores, tenha ele 30, 100 ou mil relógios. Ele também elogia o produto, que descreve como muito bem executado e com alguns dos desenhos mais ergonômicos da relojoaria moderna. A marca, aliás, chega a dedicar anos ao desenvolvimento de caixas e pulseiras para que se ajustem com perfeição ao pulso.
Por trás da grife estão quatro cofundadores, que a criaram em 2018. O CEO Axel Leuenberger e o diretor técnico Jérémy Freléchox passaram pela Audemars Piguet Renaud & Papi, referência em desenvolvimento de movimentos complexos. O diretor criativo e designer industrial Thierry Fischer traz um histórico de design ousado. O presidente do conselho, Mehmet Koruturk, resume a filosofia: uma marca nova precisa “merecer o direito de existir”, e a Vanguart pode contribuir por conhecer a alta relojoaria tradicional sem o peso de uma longa história que dite como um Vanguart deve ser.
Cerâmica rosa e azul, em apenas 25 peças
No início deste ano, a casa lançou o Orb Pink Ceramic Titanium e o Orb Blue Ceramic Rose Gold, limitados a 25 unidades cada. Só o desenvolvimento das cerâmicas pastel, ultrarresistentes e que não desbotam nem riscam, levou um ano. A cerâmica foi integrada ao desenho: uma pista de titânio com revestimento PVD, de formato inclinado, acompanha a estrutura curva e côncava e tem a mesma cor dos elementos cerâmicos, efeito obtido com uma técnica de micropintura de alta precisão normalmente usada na indústria automotiva. As caixas têm 41 mm de diâmetro e 10,5 mm de espessura.
Fischer, que diz ser contra inventar por inventar, define o projeto como uma “jornada notável” e afirma que ele marca o início de um novo capítulo, capaz de aproximar a marca de mais pessoas sem abrir mão de sua identidade.
Colecionadores que pedem a próxima leva
Entre os entusiastas está David J. Adelman, fundador e CEO da Darco Capital e coproprietário do Philadelphia 76ers e do New Jersey Devils, frequentemente visto na beira da quadra com seu Orb de titânio, cuja pulseira ele alterna entre azul e branca. Colecionador que prefere marcas fora do circuito mais comum, como F.P. Journe, De Bethune e Richard Mille, ele diz que o relógio não é espalhafatoso e provoca a pergunta “o que é isso?”. Adelman conta que Koruturk o agradeceu pessoalmente em um evento e puxou conversa, e já avisa: “Pode me incluir na próxima alocação”.
Para Koruturk, o público de hoje entende de movimentos, acabamentos, procedência e design e percebe de imediato o que é derivativo, o que obriga as marcas jovens a ter um ponto de vista muito claro. Com produção minúscula, clientes fiéis e peças que unem técnica clássica e visual de ficção científica, a Vanguart mostra que ainda há espaço na alta relojoaria independente para quem chega com identidade própria.





