Marcas independentes chinesas estão mudando a lógica que as colocou no mapa: em vez de depender só de desfiles, showrooms e multimarcas, várias aproveitaram a Semana de Moda de Xangai para abrir lojas próprias, testar pop-ups e criar coleções pensadas para o uso cotidiano. A temporada Primavera/Verão 2027 aconteceu de 8 a 16 de outubro e foi aberta pela grife local Hemu, com a coleção Silk Road.
O movimento aponta para uma nova fase do setor. Para os nomes emergentes, a visibilidade na semana de moda e a presença em boutiques multimarcas sempre foram o caminho para ganhar reconhecimento e distribuição. À medida que constroem uma base fiel de clientes e relações mais sólidas com varejistas, porém, essas marcas querem mais controle sobre como os produtos chegam ao mercado e sobre o vínculo com quem compra. O contexto também pesa: a recuperação do mercado de luxo segue lenta, sobretudo na China, e as consumidoras estão mais seletivas nos gastos.
Roupa para o dia a dia, sem perder a assinatura
Nas passarelas, a tendência foi trocar peças de ocasião e styling dramático por um guarda-roupa mais usável. A Pronounce, marca chinesa que já mostra em Milão, celebrou dez anos com a coleção de moda feminina Through Her Eyes. Os designers Yushan Li e Jun Zhou revisitaram as fronteiras entre o masculino e o feminino a partir de um olhar de mulher, com silhuetas definidas e alfaiataria mais macia ao lado de peças menos estruturadas. Proporções e técnicas de construção da roupa tradicional chinesa foram reinterpretadas para o guarda-roupa contemporâneo.
A Shushu/Tong seguiu desenvolvendo sua estética de feminilidade juvenil, e o desafio, nesse caso, é ampliar o apelo para além do traje de ocasião sem abandonar a identidade. A Xu Zhi explorou tensão parecida ao combinar camisolas de inspiração vitoriana, rendas e estampas vintage com jeans desgastado, jaquetas de motociclista e casacos militares. No geral, a temporada trouxe um visual mais polido e descontraído, com silhuetas limpas, cores contidas e peças básicas, e a diferença vinda de corte, proporção, materiais e construção.
Rui Zhou, fundador e diretor criativo da RuiBuilt, resume a mudança. Segundo ele, no início a marca apostava em peças visualmente marcantes, muitas vezes ideais para eventos e para looks de celebridades. Com a expansão por mercados asiáticos e o contato com as demandas de clientes e multimarcas, passou a incluir itens como jeans e jaquetas leves, fáceis de combinar em camadas.
Lojas próprias e pop-ups ganham espaço
A outra frente de transformação é a venda. O modelo tradicional, baseado em desfiles, showrooms e multimarcas, permite chegar a várias cidades sem arcar com o custo de operar lojas e divide parte do risco de estoque com os parceiros. Em contrapartida, limita o acesso a dados sobre quem compra as roupas.
A Samuel Guì Yang, depois de anos focada no atacado, abriu sua primeira loja global na Julu Road, em frente à Associação de Escritores de Xangai. O espaço ficou pronto em menos de dois meses e foi inaugurado no terceiro dia da semana de moda, como um passo natural nos dez anos de trajetória, segundo o fundador. A Markgong, nascida no digital, abriu em agosto seu primeiro flagship no shopping IAMP, e a Nana Jacqueline se expande por novos shoppings e cidades. A Ruohan, que construiu o negócio com parceiros como a Lane Crawford e apresentações na Semana de Moda de Paris, prepara a primeira loja própria, na Hunan Road, em Xangai, nas próximas semanas.
A RuiBuilt testou o formato em menor escala: após o desfile, realizou um pop-up de quatro dias, de 11 a 14 de outubro, com peças-assinatura, cores exclusivas e produtos de lifestyle, além das criações mais dramáticas de passarela, que costumam ser difíceis de encomendar nas multimarcas. A consultora de moda Cherrie Ying observa que várias marcas já têm uma base de clientes de varejo e podem convidar compradores conhecidos para ver as coleções diretamente, negociando orçamentos, sortimento e prazos de entrega. A mudança, segundo o relato, não é abandonar os showrooms, mas repensar quando e como usá-los.
Para quem acompanha o mercado de luxo, o recado é claro: reconhecimento criativo já não basta. As grifes independentes chinesas buscam transformar atenção em vendas recorrentes e criar modelos de distribuição capazes de resistir a uma demanda incerta, sem diluir o que as diferencia.





