O Mediterrâneo no pico do verão virou sinônimo de gente demais, espaço de menos e um calor que tira a graça até de ficar na beira da piscina. Por isso, viajantes experientes estão trocando a alta temporada pelos meses frios, e a procura já mexe com a aviação: a companhia aérea só de classe executiva La Compagnie passou a operar durante o ano inteiro a rota Nova York–Nice.
Há algo de volta às origens nisso. Antes de Zelda e F. Scott Fitzgerald transformarem a Côte d’Azur em endereço de verão, a região era refúgio de inverno da realeza europeia. Os destinos pensados para o tempo quente também já se movimentam: o Passalacqua, no Lago de Como, acaba de ganhar uma piscina coberta. A reportagem da Robb Report ouviu quatro consultores de viagens de luxo, e as dicas abaixo vêm das conversas com eles.
Mônaco e Sicília: jazz, helicóptero e laranjas
Para quem quer um feriado diferente, a sugestão é passar o Ação de Graças americano em Mônaco, durante o Monte-Carlo Jazz Festival, que dura 12 dias e tem a banda Brand New Heavies como atração principal no dia do feriado. Jack Ezon, da Embark Beyond, recomenda despachar a bagagem de carro desde Nice e fazer o trajeto de helicóptero, 15 minutos a partir do aeroporto, para fugir do trânsito da estrada costeira. Segundo ele, há ainda um bônus: “dá para passar pela segurança em Mônaco literalmente sem fila”. A hospedagem indicada é o Hôtel Hermitage, descrito como mais discreto e ao mesmo tempo mais sofisticado que o irmão famoso, o Hôtel de Paris. Os drinques na varanda do Amazónico, na Place du Casino, devem ser possíveis mesmo com o clima ameno, mas vale chegar com disposição para dançar, já que o espaço se transforma em balada ao longo da noite.
Na Sicília, o convite é para a época da colheita dos cítricos, quando os cardápios se enchem de variedades locais. A paisagem ganha o Monte Etna coberto de neve, e as encostas ao norte têm pistas fáceis, boas para famílias. A primeira escolha da publicação para ficar é a Rocca delle Tre Contrade, villa de 12 quartos em um mirante na costa leste, oferecida pela Thinking Traveller. Andrea Grisdale, da IC Bellagio, indica o I Pupi, estrelado no Guia Michelin, onde o chef Tony Lo Coco reinterpreta com elegância clássicos sicilianos como o arancini, e o Kalos, em Agrigento, restaurante mais contemporâneo com “vista ampla sobre a paisagem antiga do Vale dos Templos”.
Maiorca e Creta: pedal, fortaleza e quinta-feira esfumaçada
Maiorca se firmou discretamente como um dos segredos do ciclismo, e suas colinas suaves são um campo de treino ideal fora da alta temporada. No fim do mês, a ilha recebe o Challenge Ciclista, formado por cinco corridas de um dia, os chamados trofeus. Dá para acompanhar a ação ou refazer o percurso por conta própria, e a bicicleta elétrica nas subidas mais duras está liberada. Virginia Irurita, da Made for Spain & Portugal, indica o Cap Rocat, que ela considera “o melhor hotel da ilha”, talvez de toda a Espanha: instalado em uma fortaleza restaurada, fica à beira-mar, com vista para a Baía de Palma. Para recarregar os carboidratos, a dica é o Andana, comandado por Maca de Castro, chef nascida em Maiorca e queridinha do Michelin.
Já Creta é a aposta de Ileana von Hirsch, da Five Star Greece, para uma espécie de Carnaval mediterrâneo. Segundo ela, a ilha tem o melhor clima do fim do inverno, e a ausência de turistas devolve ao lugar o que chama de “seu lado encantador e autêntico”. A sugestão é alugar uma villa em Chania, cidade animada mesmo fora de temporada, e, se o tempo virar, se refugiar no Fagotto Jazz Bar, no centro antigo, descrito por ela como “escuro, intimista e cheio de atmosfera”. O ponto alto é a Tsiknopempti, a Quinta-Feira Esfumaçada, equivalente grego da Terça-Feira Gorda e marco da reta final antes da Quaresma ortodoxa. Em 2027, cai em 4 de março, com muita carne grelhada à mesa.
Por que isso importa: a mudança de calendário indica que o luxo na região se mede cada vez menos pelo sol garantido e mais por tranquilidade, serviço sem filas e experiências locais. Com companhias aéreas e hotéis ajustando a oferta ao inverno, quem viaja do Brasil, onde o verão europeu é tradicional, ganha uma alternativa mais calma e, muitas vezes, mais autêntica.





