Para virar a escritora Patricia Highsmith, Dame Helen Mirren recorreu a um truque clássico da alfaiataria: ombreiras reforçadas. Ela pediu à equipe de figurino que ampliasse a estrutura dos ombros, e o resultado, nas palavras da atriz, dá à personagem um ar de quem está prestes a dar o bote. O detalhe foi contado no podcast The Run-Through, da Vogue americana, em conversa com Chloe Malle e Taylor Antrim.
A atriz britânica afirma que entrou, finalmente, na sua “era vilã”. Para ela, isso tem a ver com o avanço da idade. “Quando você é mais velha, se é mulher, precisa ser uma pessoa terrível e horrorosa”, disse, em tradução livre. A vilã da vez é a própria Highsmith, autora da série Ripley, em A Talent for Murder, novo longa do diretor e renomado fotógrafo Anton Corbijn.
Uma Highsmith de ombros erguidos
O filme é baseado na peça Switzerland, de 2014, da dramaturga Joanna Murray-Smith, e cria uma cena fictícia para o último capítulo da vida da escritora. Isolada numa casa brutalista nos Alpes suíços, na companhia de seus caracóis de estimação, ela recebe a visita de um jovem e bonito editor de Nova York, interpretado por Alden Ehrenreich. A missão dele é quase impossível: convencê-la a escrever mais um livro da série Ripley.
Foi o marido de Mirren, o diretor Taylor Hackford, quem a apresentou à obra de Highsmith, e ela virou fã tanto dos livros quanto das várias adaptações para o cinema. Na composição da personagem, o figurino foi decisivo. Highsmith usava roupas marcadamente masculinas e tinha pescoço curto e postura curvada, sobretudo nos anos finais. As ombreiras ampliadas ajudam a traduzir essa silhueta em cena.
Papéis melhores, saltos inconfundíveis
A conversa também voltou ao início da carreira de Mirren, quando os papéis oferecidos às mulheres eram bem menos nuançados. “Eram péssimos”, lamentou, acrescentando que hoje estão muito melhores. Se pudesse aconselhar a jovem atriz desanimada com o que lhe ofereciam, diria: “seja o mais mal-educada que puder”.
O trio ainda falou sobre alguns dos looks recentes de Mirren no tapete vermelho, sobre os saltos que ela chama de “stripper”, comprados na Hollywood Boulevard e que viraram sua marca registrada, e sobre o hábito de fazer as próprias roupas.
O episódio mostra como o figurino pode ser uma ferramenta de interpretação, e não só adorno. Aos olhos de quem acompanha moda, a lição é que poder de presença se constrói também na estrutura de um ombro, e que Mirren, com seus saltos sem cerimônia e sua veia de costureira, sabe disso há muito tempo.





