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Estilo

Shanghai quer ser a quinta capital da moda: o que a semana chinesa faz diferente

Em Shanghai, estilistas jovens, público e compradores convivem de perto, e a tradição artesanal chinesa vira roupa para o dia a dia.

Redação Novidades e Joias
19 de outubro de 2026, 22h40 · 4 min de leitura
Shanghai quer ser a quinta capital da moda: o que a semana chinesa faz diferente
Arte: Novidades e Joias

Enquanto o circuito da moda procura a próxima grande novidade quase sempre nos mesmos endereços, a Semana de Moda de Shanghai apresenta um argumento forte para ampliar o mapa. Segundo a Vogue, que enviou uma repórter pela primeira vez ao evento, a cena da cidade chinesa é jovem, conectada e incomumente próxima de quem de fato compra as roupas. E isso vai além do tamanho do mercado da China.

O melhor exemplo é o Labelhood, plataforma independente que se tornou uma das vitrines mais interessantes para novos talentos. Lá, a fronteira entre o mundo da moda e o público é porosa: há um desfile para editores e compradores e outro para todos os demais, com o mesmo entusiasmo diante da passarela. Para Blake Abbie, canadense editor-chefe da A Magazine Curated By, essa proximidade é um trunfo. Em Shanghai, diz ele, os próprios estilistas entendem o que as pessoas querem vestir. “Não creio que seja o caso da Europa ou de Nova York, onde os designers muitas vezes criam o que acham que as pessoas deveriam usar”, afirmou.

Uma estrutura que sustenta a criação independente

A proximidade tem método. Desde 2015, a Semana de Moda de Shanghai constrói um ecossistema que reúne desfiles, showrooms e oportunidades de negócio, explica Landon Du, diretor de projetos do evento. No calendário principal, em geral, o estilista precisa ter pelo menos dois anos de experiência, e as inscrições passam por um comitê de profissionais do setor, imprensa, donos de showroom e compradores. O Labelhood, por sua vez, funciona como porta mais aberta para nomes emergentes.

Desfilar custa caro: produção, modelos, styling, iluminação e assessoria de imprensa pesam no orçamento, e patrocínios raramente cobrem tudo. Por isso, muitos nomes da programação já têm negócios de varejo na China, e alguns chegam a lojas multimarcas no exterior. Tasha Liu, fundadora do Labelhood, destaca que a capacidade produtiva chinesa e o comércio eletrônico maduro permitem que marcas jovens cheguem ao consumidor sem montar antes uma complexa distribuição internacional. Elas crescem online e em multimarcas antes de abrir lojas próprias. Compradores domésticos aparecem em grande número, o que faz da cidade também um centro de negócios. Paris segue como principal destino de pedidos de compradores internacionais, mas Shanghai tem fôlego comercial próprio.

Tradição chinesa sem cara de museu

Outro movimento citado por Liu e Du é o interesse crescente pela herança chinesa, seu artesanato e suas técnicas tradicionais. Os estilistas vão além das referências culturais mais óbvias e buscam processos preservados por famílias e comunidades, como tingimento e bordado. Liu cita a Kinyan Lam, que trabalha com técnicas tradicionais de tingimento de áreas rurais do sudoeste da China, e Samuel Gui Yang, que aborda a estética chinesa com sensibilidade contemporânea e apresentou a coleção de prêt-à-porter primavera 2027. Abbie conta que há designers dedicando meses a bordados num nível comparável ao da alta-costura, mas em peças pensadas para o uso cotidiano. Depois da pandemia, observa, mais criadores voltaram ao país após estudar fora e passaram a olhar a própria herança com orgulho renovado.

A relação com o luxo internacional, aliás, não é de simples substituição. Para Liu, as grandes maisons ajudaram a educar o consumidor chinês sobre design, narrativa e identidade de marca, e esse público hoje desenvolve gosto próprio. Alguém pode admirar Hermès ou Louis Vuitton e escolher um estilista local por razões que vão além do preço. Abbie lembra que a desaceleração econômica afetou os gastos, mas abriu espaço para marcas jovens com proposta diferente da do luxo estrangeiro, cujos preços na China podem ser bem inflacionados.

O que vem a seguir é a integração mais profunda desses nomes à indústria. Du aponta que designers chineses entram em equipes criativas de grandes grupos domésticos de forma mais duradoura, e não só em cápsulas. No exterior, as parcerias de Feng Chen Wang com a Under Armour e de estilistas chineses de outerwear com a Moncler mostram o mesmo caminho. A pergunta que fica é se esse talento chegará a liderar grandes casas internacionais. Para a leitora brasileira, a lição é clara: a próxima referência de moda pode nascer de uma relação direta e sem hierarquia entre quem cria e quem veste.

Com informações de Vogue.