Em tempos de inteligência artificial, o jeans quer ficar mais humano. Essa é a tese de “The Real Shift”, previsão de tendências para a primavera/verão 2028 (no calendário do Hemisfério Norte) apresentada na Kingpins Amsterdam, feira internacional dedicada ao universo do denim. O estudo é assinado por Ana Paula Alves, fundadora e diretora de estratégia da consultoria Be Disobedient, e pela analista de tendências Fedra Fumiatti.
Segundo Alves, o vocabulário que passa a orientar o design é feito de palavras como mais lento, honesto, suave, confiável e “bem mais humano”. A dupla descreve um consumidor que espera que as marcas mostrem seus processos, criem peças com assinatura própria e deem destaque aos artesãos e especialistas da cadeia produtiva. Como exemplo, ela citou campanhas recentes de Paul Smith, Bottega Veneta e Polaroid que celebram o fator humano. “Em um mercado inundado de perfeição sintética, as pessoas vão pagar mais pelo que é feito por humanos”, afirmou.
Real Sport e Real Nature: do esporte ao imperfeito
A mensagem se divide em três eixos. O primeiro, Real Sport, une moda, corpo, movimento e desempenho. Ombros estruturados, painéis modelados, construções acolchoadas e proporções mais fortes entram no jeans, com padronagens ergonômicas, listras, linhas curvas e fechamentos com cadarço vindos do automobilismo e do rúgbi. A dança inspira saias e vestidos com franjas de denim, acabamentos laminados que lembram suor e silhuetas ajustadas ao corpo.
As peças-chave incluem moletons de denim, bermudas largas em tecidos rígidos e pesados e jeans oversized com joelho duplo, painéis de carpinteiro, pesponto marcado e travetes. Listras no urdume, fios tingidos, costuras em contraste e vivos trazem toques de cor sobre o índigo escuro ou lavagens claras e limpas. Alves recomenda o “vermelho atlético” e as lâminas metálicas para declarações mais ousadas, além de alertar que conjuntos devem passar pelo mesmo lote de lavagem para manter a uniformidade.
Já o Real Nature aproxima o luxo do mundo natural, com um olhar orgânico, artesanal, único e imperfeito. “Na natureza real, quando algo parece um erro, ele é apreciado e valorizado”, disse Alves. Isso aparece em superfícies amassadas, contrastes negativos, efeitos que imitam o sol, degradês inspirados no oceano e silhuetas soltas e fluidas. Texturas que lembram couro convivem com estampas florais e botânicas, bordados e aplicações, e a consultora indica pigmentos naturais para os efeitos estampados. Renda, manchas orgânicas, flocagem e camuflagem entram na lista, esta última não de maneira militar, mas como forma de se misturar ao ambiente.
Real Social: o uniforme como referência
O terceiro eixo, Real Social, parte de arquétipos e estereótipos, com forte influência de arte, música e cinema. O uniforme é protagonista: conjuntos de denim branco que passam a ideia de algo “puro, limpo e polido”, silhuetas utilitárias de avental e looks de duas peças em sarja e denim nas cores clássicas verde, cinza e marrom. Os co-ords ganham toques de pijama, como bolsos quadrados e modelagens confortáveis, além de cós duplo, listras, nós na cintura e barras cruas.
O conceito chega a ser bem específico quando o assunto é o visual do estilista Jonathan Anderson, da Dior, que tem como assinatura camisa xadrez e jeans, uma estética fácil de reproduzir. Para ler o look com precisão, Alves diz que o xadrez precisa ser de fios tingidos, porque a estampa fica chapada ao lado do tecido tramado. Coletes curtos, shorts de alfaiataria, jeans de cintura alta e conjuntos de sarja marrom em proporções amplas completam o grupo, com acabamentos reflexivos, cós duplos e triplos e gráficos inspirados em grafite para dar espontaneidade.
O que isso significa para quem acompanha moda: o denim do futuro próximo promete menos brilho de perfeição e mais marcas de processo, como o desgaste, a costura aparente e a imperfeição assumida. Para as grifes, a mensagem é clara: contar quem faz a peça e como ela é feita deve valer tanto quanto o modelo em si.





